Interviews with the artists: Miguel Palma

ENTREVISTA A MIGUEL PALMA, POR DANIELA AGOSTINHO  

Daniela: O teu trabalho é notório pelo fascínio e ao mesmo tempo por uma visão crítica da tecnologização do social, ecoando o mito grego de Prometeu, que deu ao homem, de uma só vez, a tecnologia e a angústia. Que quadro de actuação pode a prática artística reclamar para si neste contexto de coexistência inevitável com a tecnologia?

Miguel: Sem dúvida! E está cada vez mais presente…

Daniela: A exploração da falha tecnológica, do glitch, do espectáculo do desastre, é recorrente na tua obra. Recordando a fórmula de Paul Virilio, a invenção do comboio (como do navio e do avião) traz também a invenção do acidente ferroviário. De que formas dás a ver esta reflexão sobre a falha e o erro? O erro tecnológico não é também e sempre humano?

Miguel: Qualquer desafio tem uma componente catastrófica e de não-funcionamento que me apaixona.

Daniela: No teu trabalho é evidente uma profusão de dispositivos ópticos, tanto de observação como de projecção, que sugere uma relação complexa entre tecnologia e olhar. Existe ainda uma predominância do ocular na experiência estética e social? E de que forma a tecnologia está ou não implicada nesta persistência?

Miguel: A minha retina precisa de uma projecção filtrada por quaisquer óculos polaroid. Mas continuo a semi-cerrar os olhos, usando uma quantidade enorme de pequenos músculos que são mecânicos e temporais.

Daniela: A tua obra resulta de uma colaboração regular com outras áreas do conhecimento. Como opera esse tráfego de conhecimentos? Entendes a tua prática artística como laboratorial?

Miguel: Sem dúvida. O laboratório é para mim um espaço de confluências de várias áreas, que para mim, operam dislexicamente, e acabam por se organizar numa intenção artística tão próxima, e simultaneamente, tão longe da ciência.

Daniela: A relação entre obra, contexto de produção e de exibição é muitas vezes tornada explícita no teu trabalho, como por exemplo na tua recente exposição na galeria Zaratan, que incluiu o registo em vídeo da produção da obra em exposição. O teu projecto para o 5 to 5 vai dar visibilidade a esta relação?

Miguel: No projecto da Zaratan, eu era um fabricante que transformava o sentido de uma lata de óleo, num componente de um instrumento musical. A minha operação era literalmente artística. No projecto 5/5, o dispositivo construído no laboratório, é um simulacro de uma catástrofe a uma escala reduzida, didáctica, e sem esperança.